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Editora Record (Rio de Janeiro)

O LIVRO DAS GAROTAS AUDACIOSAS

Este livro das norte-americanas Andrea Buchanan e Miriam Peskowitz fez sucesso no mundo inteiro. A Editora Record me encomendou perfis de mulheres brasileiras audaciosas para serem incluídos na versão brasileira. Então escrevi sobre Chiquinha Gonzaga, Leila Diniz, Pagu, Nise da Silveira, Imperatriz Leopoldina e Maria Bonita. Um time de garotas danadas, hein?

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Editora Record (Rio de Janeiro)

O LIVRO PERIGOSO PARA GAROTOS

Apesar do título, o livro não explode ao ser aberto. Ele é um mix de manual, almanaque e enciclopédia, repleto de curiosidades, truques e brincadeiras, criado pelos ingleses Conn e Hal Iggulden nos moldes dos antigos livros para garotos. Foi um sucesso estrondoso em todo mundo e para a edição brasileira a Galera Record me pediu perfis de “garotos” inventivos e corajosos. Escrevi sobre os sertanistas Orlando e Cláudio Villas-Boas, o navegador Amyr Klink, o inventor Santos-Dumont e o explorador Percy Fawcett, que desapareceu na selva brasileira.

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Editora Globo

Revista Crescer

Abril de 2011

A FLORESTA DE LETRAS

"Antônio é estabanado. Esbarra nas coisas. Derruba tudo em que põe a mão. Um dia virou o livro que estava lendo e derramou todas as letras no chão. Levou um susto quando viu as páginas em branco e tanta letra esparramada. Tentou juntar, não conseguiu. Letra quando esparrama é difícil de pegar. Desliza. Escorrega. Gruda uma na outra. Negócio de doido.

Então ele resolveu deixar tudo lá no quintal. Veio o vento e misturou as letras mais ainda. Quando foi no dia seguinte, nossa... que surpresa! As letras tinham brotado. Nasceu um pé de B aqui. Um pé de H lá. Um pé de N acolá. E um montão de pés de A por todo canto. A é a coisa mais fácil de brotar. Parece chuchu.

O quintal de Antônio virou uma floresta de árvores de letras. Logo começaram a dar frutos. Algumas davam cachos de livros. Ele precisava contar isso pra alguém. Chamou a Clara, que morava na casa do lado. Chamou o Tiago, que morava na casa do outro lado. Os três entraram na floresta. Um O caiu de maduro e quase acertou a cabeça do Tiago. Caiu fazendo assim, ó: ÔÔÔÔÔÔ!

Engraçado que debaixo de cada árvore tinha um bicho lendo. O macaco lia Marcelo, Martelo, Marmelo. A jaguatirica lia A Vida Íntima de Laura. O tamanduá lia Memórias de Emília. Numa floresta de letras, dava mesmo vontade de ler. Cada um colheu um livro e começou a ler também. Antônio tomou o maior cuidado pra não esparramar as letras de novo. O que aconteceria se nascesse uma floresta dentro de outra floresta? Puxa, nunca mais achariam o caminho de casa! Se bem que os três estão lá até hoje, lendo, lendo, lendo...

Quer saber onde fica a floresta de letras? Com um pouco de imaginação, qualquer um chega lá. Vai por ali. Faz a curva. Anda mais um pouco. Depois segue em frente. Aposto que vai conseguir. Encontro você lá. Tchau."

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Editora Câmara Brasileira do Livro

Revista Panorama

Seção Opinião

Novembro de 2006

FELIZ PARA SEMPRE EM TATIPIRUM

"Muito antes de saber ler, eu já adorava a Emília e conhecia muito bem todos os personagens de Monteiro Lobato. Isso porque eu não perdia de jeito nenhum os episódios de O Sítio do Pica-pau Amarelo na TV, a adaptação pioneira de Tatiana Belinky e Júlio Gouveia. Foi o meu satori. Até hoje, não sei onde Emília termina e eu começo. Ou vice-versa.

Mas a coleção de Lobato ficava me tentando na estante. Os livros eram de meu irmão, mais velho do que eu e que já sabia ler. Como eu conhecia as aventuras do Sítio, gostava de espiar as ilustrações de Le Blanc e de Belmonte. Para isso, eu usava meu velocípede como escada.

Lembro-me muito bem do fascínio de ver o Visconde de Sabugosa vestido de anjo. Era muito menos assustador do que os anjos de Gustave Doré que habitavam uma Bíblia algumas prateleiras acima e que pesava uma tonelada, obrigando-me a ficar nas pontas dos pés sobre o velocípede para xeretar em suas páginas.

Durante muito tempo, meu anjo da guarda foi um sabugo com asas que, de fato, protegia-me e não me punha medo. Foi? Confesso, ainda é. Sempre será.

Mesmo morrendo de medo, eu me esticava sobre o velocípede para apanhar a Bíblia e horrorizar-me com as gravuras. Sentia um prazer mórbido nisso. Numa dessas vezes, aconteceu o inevitável. O velocípede deslizou, eu caí e bati a cabeça no chão. Devo ter ficado alguns minutos desacordado. Quando abri os olhos, estava rodeado de meus familiares. E de livros.

Meu anjo-sabugo deve ter cochilado nessa hora. Ou estava caído atrás da estante, coberto de bolor, como descobri mais tarde, lendo Lobato.

Morbidez não é algo que se cura com um tombo. Eu também era fascinado pelas ilustrações sombrias de outro livro de meu irmão. Chamava-se Juca e Chico. Eles eram uma dupla que de politicamente correto não tinha nada. Entre suas façanhas estava colocar besouros nojentos sob a coberta de um homem ou explodir a cara de outro pondo pólvora em seu cachimbo. As imagens mostravam tudo isso de forma sinistra e assustadora. Se os garotos eram gauche, a história não era, e eles terminavam triturados em um moinho de farinha e, por fim, devorados pelos gansos da casa. Mais moralista, impossível. Muito mais tarde, descobri que o autor, Wilheim Busch, foi um precursor dos quadrinhos e que a tradução do livro para o português era do poeta Olavo Bilac. Eis por que eu compreendia tão bem a história apenas olhando as ilustrações.

Minha alfabetização coincidiu com a publicação de uma série infindável chamada Histórinhas Semanais, assim mesmo, com acento no o. Eram livros diminutos vendidos em banca e que eu guardava com meticuloso cuidado arquivados em caixas de sapato. Meu pai é que me presenteava com eles. Até hoje, lembro-me com nitidez de muitas dessas histórias e do prazer que me causavam. Quando cresci, esses livros foram doados a outras crianças e, hoje, eu faria qualquer coisa para tê-los de novo. Há poucos anos, fui pesquisar no setor de memória da Editora Abril e descobri, surpreso, que boa parte das histórias da coleção eram escritas por autores brasileiros e admirei-me como, em poucas páginas, produziram aventuras inesquecíveis com concisão e inteligência.

Quando, finalmente, aprendi a ler com fluência, ganhei o que eu considero o meu primeiro livro, embora eu já vivesse cercado deles. Chamava-se Na Terra dos Meninos Pelados. Fui então arremessado para dentro do fantástico mundo de Tatipirun, onde as crianças têm um olho preto e outro azul e nenhum cabelo. O herói, Raimundo, era dono de uma autonomia que eu então só conhecia em Emília. Com que liberdade ele desbravava aquelas terras e aprendia coisas novas! Que lindo seu encontro com a menina-princesa-de-mentira Caralâmpia. Quer dizer que havia um paraíso mesmo para quem se distinguia do sem-gracismo das pessoas comuns? Não demorei a me mudar para Tatipirun de mala e cuia.

Anos mais tarde, já adolescente, li Vidas Secas. Fiquei intrigado. De onde eu conhecia aquele escritor de nome tão familiar? Fui conferir. Era ele, o mesmo autor de Na Terra dos Meninos Pelados. Graciliano Ramos."

Claudio Fragata

Poema publicado na revista Ciencia Hoje para Crianças, Edição 238, de setembro de 2012.